Tem uma minissérie escondida no catálogo da Hulu que merece muito mais atenção do que recebe. Se chama Devs, tem oito episódios, e foi criada, escrita e dirigida por Alex Garland — o mesmo cara por trás de Ex Machina e Aniquilação. E a forma como ela lida com o conceito de viagem no tempo é tão densa e perturbadora que faz De Volta Para o Futuro parecer uma história de criança.

A trama acompanha Lily Chan, interpretada por Sonoya Mizuno, uma engenheira de software que começa a investigar o desaparecimento do namorado depois que ele entra em contato com um projeto secreto dentro da Amaya, uma gigante de tecnologia do Vale do Silício. Esse projeto secreto é o Devs — uma divisão que está construindo um computador quântico absurdamente poderoso, capaz de reconstruir o passado e prever o futuro com precisão assustadora.

E é aqui que a série se separa de qualquer outra coisa que você já viu sobre viagem no tempo. Garland não está interessado em nenhum tipo de máquina que transporta personagens entre épocas. O que o Devs faz é observar o tempo — passado e futuro — como se fossem dimensões já existentes, permanentes, imutáveis. Isso leva a série direto para o território do determinismo duro: a ideia de que tudo que acontece é consequência de causas anteriores, e que o livre-arbítrio pode ser uma ilusão completa.

Nick Offerman vive Forest, o CEO da Amaya, um homem que usa essa filosofia quase como uma religião — e que é capaz de coisas terríveis para proteger o projeto. A dinâmica entre ele e Lily é o motor emocional de tudo, mas o que sustenta a série de verdade é o peso intelectual das perguntas que ela levanta. O que significa fazer escolhas se o futuro já está determinado? A tecnologia nos liberta ou apenas nos mostra a jaula em que já estávamos?

Visualmente, Devs é deslumbrante. Garland constrói uma atmosfera quase hipnótica, com um ritmo lento e deliberado que pode incomodar quem espera ação frenética, mas que recompensa quem topa a viagem. A série estreou em março de 2020 como parte do selo FX on Hulu e ficou à sombra de muita coisa — o que é uma pena enorme, porque ela é exatamente o tipo de ficção científica que fica na cabeça por semanas.