That '70s Show ainda é uma série querida por muita gente. A química do elenco, as cenas da Circle e o humor de época fazem a série resistir bem ao tempo — na maior parte do tempo. Porque quando você revê alguns episódios hoje, a ficha cai rápido: certas piadas simplesmente não funcionam mais. Não é questão de cancelamento ou hipersensibilidade, é que o que era considerado "inofensivo" há 25 anos revela muito sobre o quanto as coisas mudaram.
O Screen Rant mapeou oito episódios que envelheceram particularmente mal, e a lista cobre um espectro bem amplo de problemas: piadas sobre consentimento, imagem corporal, raça, assédio e sexualidade tratados como material de comédia leve.
O Fez era engraçado ou era só problemático?
Fez, vivido por Wilmer Valderrama, é talvez o personagem que mais sofre com esse olhar revisitado. Ele funciona como o "estrangeiro exótico" da turma — e a série usou esse estereótipo à exaustão. Em um episódio, ele passa uma noite escondido no armário de Donna e provavelmente a espia com Eric. Isso é tratado como comédia. Em outro momento, chega a sugerir algo que hoje claramente configuraria agressão sexual — e a cena é embalada como piada de adolescente boba. Tinha hora que a série não distinguia "personagem imaturo sendo engraçado" de "comportamento que não deveria ter plateia".
Tem também o episódio em que Hyde descobre que seu pai biológico, William Barnett, é negro — o que significa que Hyde é birracial. Não seria um problema por si só, mas a forma como o roteiro escolhe lidar com a revelação é bem constrangedora: Hyde imediatamente atribui seu cabelo, sua "frieza" e sua desconfiança em autoridades à herança negra. É o tipo de coisa que, na época, passava como referência cultural e, hoje, só evidencia os limites criativos do que a televisão mainstream achava aceitável.
Consentimento como piada recorrente
Esse é o ponto mais difícil de engolir. Há uma cena envolvendo Laurie e Kelso em que ela ignora completamente a recusa dele e a situação é enquadrada como humor. Num show que coloca adolescentes como protagonistas, normalizar esse tipo de comportamento — mesmo que "invertendo os papéis" — é um problema real. E isso fica ainda mais pesado quando você considera o contexto fora da série: Danny Masterson, o Hyde, foi condenado por dois crimes de estupro e sentenciado a 30 anos de prisão em 2023 [VERIFICAR: status atual do recurso de habeas corpus impetrado por Masterson].
Não dá pra fingir que assistir à série hoje é exatamente a mesma experiência de 2001.
Contexto de época explica, mas não absolve
That '70s Show não foi a única série da era a fazer esse tipo de coisa. Era um padrão da televisão americana dos anos 1990 e 2000 tratar piadas sobre corpo, raça e gênero como terreno seguro para comédia. O fato de a série se passar nos anos 70 complica ainda mais: algumas atitudes retrógradas fazem parte deliberada do cenário. O problema é quando o roteiro pede que a gente ria junto com a piada, e não do comportamento do personagem.
Tem uma diferença enorme entre mostrar um personagem com visão de mundo ultrapassada e construir a piada em cima dessa visão como se ela fosse válida. Alguns episódios de That '70s Show confundiram essas duas coisas — e o resultado é aquela sensação incômoda de não saber se você ainda pode rir.



