Javier Bardem é daqueles atores que não precisa gritar pra ser assustador. Em The Beloved — ou El ser querido, no título original em espanhol —, ele interpreta Esteban Martinez, um renomado diretor de cinema que resolve recrutar a própria filha, Emilia, para estrelar seu novo filme. O problema é que pai e filha praticamente não se falam faz anos, e a tensão disso vai tomando conta de cada cena.
O filme é dirigido por Rodrigo Sorogoyen, nome forte do cinema espanhol contemporâneo, com roteiro escrito em parceria com Isabel Peña. A atriz Victoria Luengo dá vida a Emilia com uma intensidade que rivaliza com a de Bardem — e isso não é pouco. A dupla em tela funciona como uma bomba-relógio: qualquer palavra mal colocada pode explodir tudo.
The Beloved teve sua estreia mundial na competição oficial do Festival de Cannes 2026, concorrendo à Palme d'Or, e agora faz sua première norte-americana no TIFF. Com 135 minutos de duração, o filme não tem pressa — e isso é tanto um elogio quanto uma ressalva. Parte da crítica elogiou a construção psicológica cuidadosa, enquanto outra parte apontou que a narrativa perde o fôlego em certos momentos, deixando a sensação de que a história poderia ter dito tudo que tinha a dizer um pouco antes.
Mas Bardem é o grande argumento do filme. Quem o conhece só pelos papéis ameaçadores — tipo Anton Chigurh em No Country for Old Men, que lhe rendeu o Oscar — vai encontrar aqui algo diferente. Esteban é menacing do jeito que só um ego frágil consegue ser: encantador, manipulador e patético ao mesmo tempo. A performance equilibra essas camadas sem cair no melodrama fácil.
Para o público brasileiro que curte cinema europeu de qualidade — denso, sem efeitos especiais, mas cheio de coisa acontecendo por baixo da superfície —, The Beloved tem tudo pra ser um daqueles filmes que ficam rondando a cabeça depois que acabam.



