O processo que acusa a Rockstar Games de perseguir funcionários sindicalizados ganhou mais um capítulo tenso nesta semana. Em depoimento no tribunal trabalhista de Glasgow, o diretor de RH e coprodutor do estúdio Rockstar Lincoln, Charlie Kinloch, afirmou que tinha pouco interesse em saber quem estava ou não filiado ao sindicato antes da demissão em massa de desenvolvedores de GTA 6 no ano passado.

O caso, batizado de Rockstar Games vs Garland & Others, tá bombando desde setembro e promete esquentar ainda mais.

O informante dentro do Discord

Segundo os ex-funcionários, a Rockstar teria infiltrado um informante dentro do servidor de Discord usado pelo sindicato para organizar a categoria. Esse informante, identificado só pelo pseudônimo "AB", estaria passando capturas de tela da atividade sindical pra Kinloch havia mais de dois anos. De acordo com documentos do processo, esse contato com o informante começou em fevereiro de 2024 e, ao longo de cerca de 21 meses, os dois tiveram pelo menos 26 reuniões ou trocas de mensagens sobre o conteúdo do servidor, com Kinloch tomando a iniciativa em boa parte delas.

O timing chama atenção porque, segundo os trabalhadores demitidos, as informações passadas a Kinloch mostravam que o grupo estava a apenas 12 membros de distância dos 10% da força de trabalho necessários para o reconhecimento oficial do sindicato. Só que Kinloch alega que nunca teve interesse ou conhecimento do status sindical de ninguém, e que seu foco era só limitar o risco de vazamentos pra Rockstar.

As duas versões da demissão em massa

O contexto todo começou em outubro de 2025, quando a Rockstar demitiu de uma vez um grupo grande de funcionários, a maioria no Reino Unido, mas também no Canadá. A própria Rockstar confirma que as demissões afetaram funcionários tanto no Reino Unido quanto no Canadá. O motivo oficial, segundo a empresa, foi falta grave: os trabalhadores teriam compartilhado informações confidenciais em um servidor de Discord, e a filiação sindical não teria nada a ver com a decisão. Do outro lado, o sindicato britânico IWGB (Independent Workers' Union of Great Britain) representa os demitidos no caso Garland & Others v Rockstar e afirma que 31 trabalhadores perderam o emprego por se organizar, alegando prejuízo sindical, inclusão em lista negra e demissão injusta.

A defesa da Rockstar nessas audiências também tem sido dura. A empresa argumentou que mensagens trocadas no servidor incluíam ofensas pesadas contra gestores e piadas ácidas sobre comunicados internos de RH, usando isso como prova de que a quebra de confidencialidade e o comportamento, não o sindicato, motivaram os cortes.

Derrotas, protestos e o Parlamento britânico

Essa não é a primeira derrota dos trabalhadores no processo. Mais cedo neste ano, um juiz já tinha decidido que a Rockstar não seria obrigada a pagar reparação provisória para os 34 desenvolvedores de GTA 6 demitidos em outubro. Na época, o presidente do IWGB, Alex Marshall, disse que o sindicato saiu da audiência mais confiante do que nunca de que o tribunal vai "find Rockstar's calculated attempt to crush a union to be not only unjust but unlawful" (encontrar na tentativa calculada da Rockstar de esmagar um sindicato algo não só injusto, mas ilegal).

A repercussão do caso já passou até pelo Parlamento britânico. O sindicato chamou as demissões de "ruthless act of union-busting" (um ato implacável de combate ao sindicato), e o assunto foi levado ao primeiro-ministro Keir Starmer, que classificou a situação como preocupante e reforçou que todo trabalhador tem o direito de se filiar a um sindicato.

Enquanto o tribunal segue ouvindo testemunhas em Glasgow, GTA 6 é esperado como um dos jogos mais vendidos da história, com lançamento previsto para novembro de 2026. A pressão sobre a Rockstar só deve crescer conforme a data se aproxima, com o desfecho do processo trabalhista ainda em aberto.