Se você entrou numa livraria ou loja de quadrinhos nos últimos tempos, já sacou a mudança. As prateleiras que antes eram dominadas por capas de Batman e Homem-Aranha agora têm fileiras inteiras de Jujutsu Kaisen, One Piece e Chainsaw Man. E não é só impressão de fã enfezado. Os números batem com o que os olhos veem.

No Brasil, um levantamento divulgado pelo BookInfo mostra que os mangás concentram 46,7% das vendas de quadrinhos no país, enquanto os títulos de super-heróis, que por décadas foram o principal símbolo do mercado, hoje representam menos de 5% do total. Isso mesmo: os caras de capa e superpoder, que já foram sinônimo de HQ no Brasil, viraram nicho.

Nos Estados Unidos o cenário rima. Segundo dados da Circana apresentados no evento ComicsPRO, manga e outros quadrinhos de estilo asiático fizeram a maior fatia de vendas de graphic novel nos doze meses até junho de 2024, com manga e manhwa somando 40% do mercado. E tem um detalhe irônico nessa história toda: no Brasil, a editora que mais lucra com quadrinhos nem é fã de super-herói só de nome. A Panini aparece com aproximadamente 68,8% de participação no mercado brasileiro de quadrinhos, um domínio raramente visto em setores culturais, mas embora seja frequentemente associada aos super-heróis, a liderança da editora não vem das vendas dos títulos da DC Comics e da Marvel, como se supunha.

Do lado dos fãs tradicionais, o argumento é direto: isso é modinha, efeito manada puxado pelo hype de anime. Pra essa turma, o quadrinho americano tem outro tipo de complexidade, universos compartilhados construídos há décadas, crossovers, continuidade profunda que nenhum mangá consegue igualar. Pra eles, o jovem que corre pra comprar volume de Demon Slayer nem sabe quem foi Jack Kirby.

Do outro lado da trincheira, os leitores de mangá batem de volta com uma crítica que ganhou peso até dentro da própria indústria americana. Jim Lee, atual presidente e diretor criativo da DC Comics, reconheceu publicamente que os mangás japoneses possuem uma vantagem significativa sobre os quadrinhos americanos, e destacou a diversidade de gêneros como o principal diferencial do mercado nipônico. Segundo ele, enquanto o mercado americano concentra suas vendas e leitores principalmente em histórias de super-heróis, o Japão oferece um ecossistema mais amplo de publicações, já que no Japão, os quadrinhos estão mais próximos da "literatura", qualquer pessoa pode ler, e não são apenas histórias de heróis. Traduzindo: mangá tem começo, meio e fim, personagem cresce, história termina, e isso conversa com um público que não quer se comprometer com décadas de continuidade só pra entender uma piada interna.

Só que declarar o quadrinho de super-herói morto também é exagero. A linha Absolute da DC Comics, lançada em 2024, provou que ainda dá pra vender parruda quando a ideia é boa: o carro-chefe da linha foi Absolute Batman, que vendeu cerca de 275 mil cópias já na primeira edição e acumulou aproximadamente 400 mil exemplares no total, tornando-se o quadrinho mais vendido do ano. A narrativa de que super-herói perdeu qualidade e por isso perdeu público, puxada por movimentos como o Comicsgate, também não sobrevive aos números: mesmo com a queda de 2023, causada por uma correção pós-pandemia e pelo fim de alguns estímulos econômicos, o mercado ainda está maior do que era em 2019.

O que rolou, na real, foi uma virada de formato e de hábito de consumo. O leitor que antes ia à banca comprar revista mensal migrou pro volume encadernado, e é exatamente esse formato que o mangá dominou primeiro e melhor. Enquanto isso, quem cresceu vendo Naruto e Attack on Titan na tela não tem o menor apego nostálgico a comprar HQ americana em capa fina.

Dá pra brigar dos dois lados com argumento na manga, com ou sem trocadilho. Quem defende super-herói aponta pra Absolute Batman e pro Ultimate Universe da Marvel como prova de que a criatividade não secou. Quem é time mangá aponta pra prateleira da livraria e pergunta: cadê o Homem-Aranha ali no meio de tanto Shonen Jump? A pergunta que fica não é qual dos dois vai sumir, porque nenhum vai. É de que lado da estante você prefere gastar sua grana esse mês.